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O artigo de hoje é uma reflexão de 15 anos de experiência no mundo do treino, 15 anos de experiência a acompanhar pessoas/atletas . Penso que este artigo pode ajudar outros profissionais, principalmente aqueles que estão a começar, pois são pensamentos, muitas vezes aprendizagens de erros que cometi no passado (e outros que ainda cometo hoje - acredito que isto faz parte da beleza de estar no “ativo”), que podem ajudar outros profissionais a poupar tempo e alguns dissabores. Por outro lado acredito que qualquer pessoa apaixonada pelo mundo do fitness e treino não perde nada em dar uma vista de olhos a estes pensamentos/aprendizagens fruto dos 15 anos de experiência neste mundo.

#1 - ser saudável é das coisas mais difíceis que há, e está cada vez mais difícil.

A maior parte das pessoas não sabe disto mas a indústria do fitness vale mais de 50B€, mais do dobro da industria do futebol. Normalmente onde há muito dinheiro há muitos interesses e a maior parte das vezes estes interesses vão na direção oposta aos melhores interesses da população em geral. Como resultado disso, temos um marketing fortíssimo de grandes marcas que nos levam a consumir um determinado produto, um determinado serviço, etc, que nos promete saúde mas que na verdade só tem uma coisa em mente - o lucro.  A confusão e desinformação propositada deixadas por estas ações de marketing levam a que seja cada vez mais difícil saber escolher quais são as melhores opções para termos uma vida mais saudável. A industria do fitness não está a colocar a população mundial mais saudável.

#2 - independentemente de tudo, o mais importante é educar

Na linha do que disse no ponto anterior, a confusão é tanta que acredito que uma das coisas mais importantes para um personal trainer é este ser capaz de educar os seus clientes de forma a que eles consigam fazer as escolhas corretas no meio da desinformação propositada deixada pelas grandes marcas. E deixem que vos diga, não é nada fácil esta tarefa.

#3 - quem tem o “core” fraco é muito mais difícil perder peso

Isto não é baseado em nenhum estudo científico é “apenas” baseado na minha experiência. Ainda não encontrei ninguém com excesso de peso que tivesse um core forte. É verdade que a maior parte de nós, se não treinados, temos um core menos apto para fazer a sua função e ao mesmo tempo menos tonificado, mas a diferença para as pessoas com excesso de peso é enorme. Aquelas que tiveram mais dificuldade em perder peso foram sempre aquelas que demoraram mais tempo a reagir ao treino abdominal e lombar. Se pensarmos isto até tem lógica - ao excesso de peso estão associados hábitos alimentares duvidosos 😃 e sedentarismo, que por outras palavras pode ser 70% do tempo sentado (ver artigo sobre posturologia onde abordo alguns problemas que daqui advêm). Ora, nesta posição a activação do “core” é mínima pelo que isto pode estar ligado ao que falo neste ponto. De novo, não é um estudo científico, é apenas a evidência da minha prática.

#4 - tudo começa na performance desportiva e depois é subvertido para o público em geral

A performance desportiva está para o fitness como a fórmula 1 está para os carros. É na fórmula 1 que se levam as  super máquinas ao limite. Nesse caminho testam-se todas as coisas possíveis, e impossíveis, para melhorar a performance dos carros. Com esse processo os engenheiros mecânicos aprendem coisas que, com os devidos ajustes, podem ser aplicadas nos carros em série. No desporto / fitness acontece algo muito parecido mas com resultados inversos. Eu explico - enquanto que no processo  fórmula 1 nós agradecemos as adaptações pois os carros vão ficar mais económicos, seguros, mais tecnologicamente avançados, na relação desporto / fitness já não é assim. Tudo é subvertido. Se um atleta faz saltos para ser mais rápido, nós inventamos uma aula de grupo (para ser rentável), com saltos, mas enquanto o atleta faz um número determinado de saltos e com um tempo específico de descanso e com anos de preparação, no fitness nós temos de por as coisas mais “intensas” e divertidas caso contrário arriscam-se a não ter ninguém na aula.

Convenhamos, carros são carros, se tiverem de ir contra uma parede, desde que o condutor saia ileso, “é só chapa”. Mas no corpo humano não é assim. Convém que a “chapa” e o “motor” vão bem longe! Aqui está outro artigo onde falo desta relação.

#5 - os ginásios são centros de encontro social e os melhores amigos dos fisioterapeutas

Há já algum tempo que os ginásios deixaram de ser um local onde íamos para sermos mais saudáveis. São antes de mais um local de encontros sociais, um pouco como ir tomar café, onde somos tratados como mais um e onde claramente nos dizem assim: queres fazer as coisas direito arranja um personal trainer, caso contrário pode passar o tempo a fazer aulas ou na passadeira - e é neste cenário que eles se tornaram os melhores amigos dos fisioterapeutas - 20 pessoas a tentarem seguir uma coreografia, cada uma com as suas limitações, saltos, sobe e desce, pesos nas costas uma e outra vez, para todas as idades e feitios…porque é que eu não tirei fisioterapia?!?!?

#6 - ter uma mala de ferramentas é melhor do que ter uma chave inglesa

O corpo humano é uma máquina muito complexa em que se mexermos numa ponta, literalmente, estamos a atuar sobre outra ponta também. Para conseguirmos trabalhar com esta máquina é fundamental percebermos o todo. Uma chave inglesa permite apertar vários tipos de parafuso e de várias dimensões mas não vai para além disso. Precisamos de uma mala de ferramentas. Precisamos de olhar para o corpo como um todo para percebermos qual ou quais as ferramentas a usar, mas para isso precisamos de conhecer o todo e as várias ferramentas disponíveis. Hoje está na moda o Treino Funcional - o Treino Funcional é uma chave inglesa, não é a caixa de ferramentas. É mais uma ferramenta que usamos para ajudar as pessoas mas nem sempre é a melhor para determinadas necessidades.

#7 - a mente é o músculo mais importante

Sim sim, sem dúvida nenhuma, a mente é o mais importante. Independentemente do objetivo da pessoa, das suas necessidades, do número de vezes que treina, se treina de manhã ou à tarde ou à noite, aquilo que vai fazer a diferença é a mente da pessoa. A capacidade de se manter focada no objetivo, de ter a disciplina necessária para atingir o que pretende…no fundo, de aceitar a responsabilidade do processo. Ninguém treina por outra pessoa, ninguém come por outra pessoa, somos nós, e só nós, que temos a responsabilidade sobre os nossos resultados.

#8 - não se muda numa semana o que demorou anos a construir

Voltamos aos milagres do “perca 7kg num mês”. Aos milagres das dietas milagrosas, ou melhor, aos pesadelos das dietas milagrosas. Não dá para recuperar numa semana o que se demorou anos a desenvolver e quando digo uma semana posso dizer um ano ou até mais (dependendo do “pesadelo” que estamos a tentar recuperar  ou de quantos “pesadelos” já tivemos e dos nossos hábitos). Para que hajam mudanças é preciso mudar hábitos e isto não acontece da noite para o dia. É mesmo muito importante perceber isto. E se acontecer da noite para o dia, o mais provável é que nos faça muito mau a longo prazo ou então que o resultado não dure muito. A sua “chapa” e “motor” merecem mais, não brinque com eles.

Obrigado pelos 15 anos e estou ansiosamente à espera dos próximos 15

César Cerqueira

Movement & Performance Coach