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“Olha para o João, vai dar jogador!” “Já viste a Ana, tem corpo de atleta. Se quiser vai longe!”
Quantos atletas conhecemos em que, numa determinada idade, dizemos que têm um grande potencial e que depois, na altura de exprimir todo esse potencial não passaram disso mesmo, atletas cheios de potencial?
Este é um dos grandes desafios que temos em Portugal. Deixar de viver do Potencial e passar a viver do Real. No filme “O Segundo Exótico Marigold Hotel” a dada altura uma das personagens “atira” com esta frase - “É um dos problemas da Vida, é cheia de Potencial”. Brilhante!
Há dias, numa reunião com várias pessoas, uma delas presidente de um clube, ele diz “Não percebo como chegamos ás provas lá fora, os outros são metade dos nossos e no entanto ganham-nos com facilidade”. Eu disse-lhe que a resposta é simples, a solução é que é complexa.
Por um lado a resposta é Política. É da responsabilidade das entidades como Estado, Federações/Comités e Associações/Clubes de criarem as condições base para que possam surgir atletas não por geração espontânea mas por um processo pensado e coerente para desenvolver atletas capazes de competir ao mais alto nível.Os projetos individuais sobrepõem-se sempre aos projectos de lógica coletiva, os projetos de “imediatismo" para conseguirmos ganhos supérfluos e sem consistência são sempre mais apetecíveis do que os projetos sustentados a longo prazo que não darão a curto prazo grande visibilidade mas que, quando mais conta, aparecem e vingam. É conhecido o exemplo do icebergue, nós ficamos maravilhados pela ponta mas esquecemo-nos tudo o que está por baixo a suster aquela coisa linda que vemos.
O que nos leva à segunda questão - nós não competimos com as mesmas armas. Os nossos atletas, precisamente porque surgem de uma geração espontânea, não têm acesso a condições que lhes permitam pensar, respirar e viver o seu sonho como profissão ou pelo menos com condições que lhes permitam ter um futuro como atletas e como indivíduos. São limitados pelo parágrafo anterior e pelo seguinte.
Terceiro a resposta é Metodológica. Treinamos mal, muito mal. Nas modalidades cíclicas só treinamos em volume, não interessa se fazemos 200m ou uma maratona (em pista ou água). Vivemos no mote “quanto mais melhor". Nas modalidades acíclicas só treinamos a modalidade, nada de outras coisas esquisitas como preparação física, mental, nutricional….Metodologicamente somos muito fracos. Treinamos sem rumo, sem um projeto de desenvolvimento do atleta a longo prazo, sem respeitar etapas, treinamos sem um ontem, um hoje e um amanhã.
A responsabilidade não é totalmente dos treinadores. Como é possível que na nossa formação, em contexto  académico ou federativo, ainda estejam a ser dados conteúdos do tempo da Padeira de Aljubarrota??? Temos uma formação “de base” completamente descontextualidade da realidade atual, sem qualquer foco na aplicabilidade, fazendo com que o aluno/treinador saia da formação exatamente da mesma forma que entrou, confuso e que a única garantia que tem para aplicar amanhã algum conteúdo é a sua própria percepção do que será certo ou errado, muitas vezes baseada na sua própria experiência?
Até que chegamos ao Alto Rendimento. Assim, do nada, só porque somos Séniores, só porque somos da Seleção Nacional. Só porque ganho umas provas. Só porque é giro dizer “Alto Rendimento”.
E com tudo isto, lá vai o João e a Ana, que poderiam ter sido mas não são. É só Potencial !!!