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Espetacular!
O fitness, o cuidar do corpo e  mente, o bem estar estão na moda. E já agora, cá entre nós, espero que fique na moda por muito tempo, não só pela minha profissão (leia-se paixão), mas porque na verdade ser saudável é ter saúde, e ter saúde é conseguir aproveitar melhor a vida, os momentos que ela nos traz, e devolver-lhes um sorriso. Nesta moda do bem estar, do corpo definido e perfeito, uma das coisas que mais vejo nas revistas, e em letras bem gordas, é “TREINE COMO UM ATLETA”. Esta ideia é passada como o único caminho para a saúde e dessa forma conseguir usufruir de todos benefícios que ser saudável nos traz. Mas eu pergunto, devem as “pessoas" treinar como atletas?
Cristiano-Ronaldo-5
Começando pelo início :)
Comecemos então já por deitar o barro ao chão. Quero desde já deixar claro o seguinte: i) uma pessoa deve, na minha opinião, procurar ser acompanhado por um treinador ligado à área da performance desportiva e, ii) não, as pessoas não devem treinar como atletas. Naturalmente que quando neste artigo eu escrevo “pessoas” refiro-me a todas as pessoas que não têm como profissão um desporto de competição/alta competição. Eu sei que os atletas são pessoas, embora muitas vezes com as suas fantásticas performances nos levem a acreditar que a coisa pode não ser bem assim :)! Mas são atletas, essa é a sua profissão. Mais, aqueles atletas que nós sabemos o nome, são “le crême de la crême” - já deixaram atrás milhares de “wanna be´s” (ei lá, isto hoje é francês, inglês…é melhor ficar pelo português que já assim é difícil )
Bom, então já terminamos por hoje não é? Não! Explicando...
Uma pessoa deve, na minha opinião, procurar ser acompanhado por um treinador ligado à área da performance desportiva
Esta foi uma das afirmações que escrevi atrás - uma pessoa deve, sempre que  possível, treinar com um treinador ligado à performance desportiva. Mas porquê? Qual é para mim a justificação para esta afirmação?
Na verdade, para mim é muito simples. Porque vemos a coisa de forma diferente. Um atleta é uma máquina em que todos os sistemas têm de estar bem oleados para que as suas performances sejam memoráveis. Para isso, quem o acompanha tem um conhecimento profundo das metodologias de treino, do funcionamento do organismo em esforço e as suas adaptações. Quando aplica um exercício sabe exatamente para quê, quais são as “sensações” que o atleta vai sentir, etc. Vê a “máquina” como um todo e sabe exatamente o que irá provocar no corpo, e mente, do atleta quando aplica uma determinada carga - como qualquer atleta dirá, esta capacidade não tem valor. Sabe quanto fazer, quando repetir, quando descansar e distribuir isto no tempo.
Os treinadores de atletas não “licenciados do youtube”, antes apresentam um CV de formações, quer teóricas quer de prática invejáveis e um conhecimento altamente especializado para a máquina humana. Percebem que aquela pequena coisa que faz a diferença é a soma de muitas outras coisas bem feitas.
Como se isto não bastasse, tem uma noção de controlo de treino muito apurada, pois não existe outra forma de conseguir resultados a não ser controlar o processo para constantemente adaptar as abordagens para o resultado final pretendido - não há um caminho absoluto, há mil e um caminhos para aquele resultado.
Numa lógica do ‘todo vs partes’/ ‘multifacetado vs especialista, tenho a seguinte opinião - é graças aos especialistas que se dão os maiores avanços nas diferentes áreas científicas, deve-se, no entanto, aos multifacetados, o conhecimento da forma como o todo trabalha e de como as diferentes partes afetam o todo. O corpo humano não é matemática e não se comporta como tal. Em ultima instância é por este factor que defendo que devem treinar com um treinador ligado à área da performance.
nelsonevora-goteborg2006Uma pessoa não deve treinar como um atleta
Mas então se eu treino com um treinador ligado à performance desportiva, porque não posso treinar como um atleta? Na minha visão, aqui fica o porquê.
Deixei no ar logo no início deste artigo que por vezes os atletas não parecem humanos, ou pelo menos as suas performances. A verdade é que não são! São uma máquina perfeita para que, naquele momento, naquele contexto, nada falhe e atinjam o sucesso. E isto requer um foco a 100%.
Com o evoluir do treino, muito devido ao fim da guerra fria, queda do muro de Berlim em que os treinadores dos países ocidentais começaram a ter acesso às metodologias usadas nos países de Leste, as possibilidades ao nível da performance desportiva parecem infinitas. A evolução que se tem assistido ao nível das metodologias de treino disponíveis, do conhecimento dos factores que afetam a recuperação dos atletas, evoluções na área tecnológica, na área medica-desportiva, metodologias de treino mental... e em todas as dimensões que afetam o rendimento desportivo, tem sido de tal ordem que o ‘atleta’ deixou de ser humano e passou a ser aquela ‘relíquia' que nos ofereceram numa data especial qualquer e que todos os dias limpamos e voltamos a colocar no sítio com 10 sistemas de alarme ligados para que nada lhe aconteça.
Estas ‘relíquias’ têm toda uma equipa à sua volta o que permite serem levadas ao limite fazendo uso de toda a evolução do conhecimento nas áreas que afetam o rendimento desportivo.
Uma pessoa normal não tem nada disto à sua volta. Não descansa quando tem de ser, apenas quando pode, não pára uma reunião a meio porque é hora de comer para que o metabolismo se mantenha ativo. Só isto é suficiente para percebermos que uma ‘pessoa’ e um ‘atleta’ não são a mesma coisa logo não podem treinar da mesma forma. Mas há mais.
Durante os meus anos de experiência a trabalhar em ginásios, vi muitas vezes alguns “especialistas” em treino, a usar com os seus clientes, por exemplo, um movimento tão simples como o salto. Vi para todas as formas e feitios, saltos verticais, horizontais, horizontais depois de um pequeno sprint, etc. Ora, para si que está a ler isto, os saltos parecem uma coisa perfeitamente normal até porque agora estão muito na moda (até existem aulas de grupo baseadas neste movimento e que são muito fixes porque fazem suar muito e porque são com muita gente - as pessoas com escoliose, hiperlordose, tensão excessiva na zona cervical - só para dizer as mais comuns - precisam todas de fazer a mesma coisa, principalmente saltos). Pois!….
Qualquer treinador de atletismo, e até de outras modalidades, sendo que neste caso tem de estar mais atento a estas coisas, sabe que, TODOS OS ANOS,  investe imenso tempo com os seus atletas numa coisa tão simples como a técnica de apoio - não interessa se o atleta se chama Nelson Évora ou Évora Nelson. Algo que o leitor faz de certeza absoluta…NÃO?!?!?!? Ups! Esta história da técnica de apoio tem vários propósitos, um deles é a prevenção de lesões. Aprender a colocar o pé de forma correta e otimizada para a ação seguinte. E depois vem o trabalho específico de Força para que toda a estrutura consiga suportar as cargas enormíssimas que este corpo tem de suportar sempre que salta (informem-se sobre a quantidade de atletasl que são operados aos joelhos - querem fazer parte dessa lista?).
A verdade é uma, existem uma série de métodos de treino, e se quisermos ir mais longe até regimes de contração muscular, que são um perigo serem usadas pelas “pessoas normais”, em qualquer circunstância. E isto, caro leitor, os “licenciados de youtube” não sabem. Para eles a única coisa que interessa é fazer suar, que não ande direito nos próximos anos porque só assim é que o treino vale alguma coisa, e de preferência que peça ajuda a todos os santos para terminar o treino. Será que o Nelson Évora termina todos os treinos a vomitar? Mmmmm, duvido muito! Esqueça aquela máxima “se não foi é porque não fez efeito”, isso são os “profissionais” que não sabem o que fazer que usam como desculpa - lembre-se da lista que falei em cima, quer mesmo fazer parte dela?
usainTerminando (finalmente)
 
Quando uma pessoa chega ao meu estúdio para começar o seu processo de treino eu tenho sempre presente o seguinte: esta pessoa tem de chegar aos 80 anos cheia de saúde e capaz de ser independente. Este princípio rege os meus treinos, assim como os da minha equipa. Claro que a pessoa tem os seus objetivos e nós tentamos ajudar a pessoa a os atingir, mas não a qualquer preço, muito menos o preço da saúde.
Lembro-me que há pouco tempo, uma pessoa que treina comigo falou que gostava de alterar um pouco o estilo de treino. Eu expliquei-lhe que por mim tudo bem mas para o que ela pretendia agora, o treina iria ter de sofrer alterações que podiam não ser muito benéficas para as suas necessidades e condição. Fizemos um treino de acordo com o desejo da pessoa e no dia seguinte ela disse-me: “já percebo a diferença, desta vez voltei a sentir dores naquela zona”.
Para mim isto resume tudo o que falei neste artigo. Claro que acabamos por ter um meio termo e conseguimos que cada um de nós tenha o que queria, mas mais importante foi o facto da pessoa ter percebido a lógica que existe por trás dos treinos que faz. Tudo fez sentido para ela.
Bons treinos,
César Cerqueira
especialista em otimização do movimento e performance, posturologista